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Até que se encontre um palhaço, tudo parece igual.

Gabrielle e mais um grupo de estudantes tiveram que passar umas horas observando a atuação de uma equipe no ambiente hospitalar. Era sexta-feira, 7 de junho, e, ao que parece, seguiram todas as orientações para se comportarem neste local. A pauta era para cada um escrever sobre o ponto de vista de um personagem. Tudo seguia seu rumo, até que uma criança viu o palhaço. Quer saber o que aconteceu? Leia a matéria que segue e entenda porque um voluntário pode transformar o dia de alguém.

Por: Gabrielle Corrêa, estagiária de Jornalismo da PUC

Estampas xadrez e sanfonas no alto falante do celular, cinco pintinhas em cada bochecha rosada. A visita era temática. As voluntárias procuraram levar a festa junina ao hospital Mario Gatti, abrindo o mês de junho de uma forma marcante para pacientes que todos os dias passam momentos tão corriqueiros e desanimados. Foi com criatividade e animação que, apesar de estarem em menor número, passaram colorindo os corredores do hospital. Era uma sexta-feira nublada e fria e a equipe de palhaças não estava completa, nesse dia atuaram apenas em três. Não parecia um dia animado, exceto pela empolgação da Nina Moleca, Japonersa e Elininda. O hospital estava silencioso e, apesar de ter alguns pacientes, estava relativamente vazio. A sala de oncologia, que costuma dar partida à trilha percorrida pelas voluntárias não possuía paciente algum e isso fez com que, naquele dia, o rumo da visita fosse outro. Elas dançaram pelos corredores do prédio a procura de enfermos. Alguns aproveitaram a visita das palhaças para dar a dose de risada diária. Com elas foi possível dar uma cor à paleta cinza do ambiente. Um sorriso aqui e uma gargalhada ali e as palhaças seguiam pelo hospital, apesar de qualquer empecilho.

É de senso comum a compreensão de que um ambiente hospitalar humanizado beneficia significativamente o bem-estar dos pacientes, auxiliando na redução do tempo de internação e nos desconfortos gerados pelos tratamentos e pelo ambiente num geral. Isso porque a liberação de endorfina, hormônio responsável pela sensação de bem-estar, também aumenta a imunidade do organismo. As vozes sussurrando e os choros de dor não são a trilha sonora mais confortável para o dia-a-dia e trocar tudo isso por um riso e pela movimentação do espaço através de danças e brincadeiras, é renovador. São os efeitos da terapia do riso que colaboram para um ambiente mais humanizado e leve, em meio a tanta doença e notícias ruins.

Quando se está em um hospital, andando de uma ala à outra, é sempre necessário lavar as mãos várias vezes. Foi assim para conversar com os pacientes da quimioterapia e foi assim para conversar com os pacientes da internação. Em uma dessas pausas, a Nina, uma das palhaças, que já havia comprido o seu dever com a higiene, explorou o corredor do quarto andar, na intenção de averiguar os quartos e os pacientes. Uma gargalhada e ela parou.

– Ei palhaça!

A Nina demorou um pouco para perceber da onde vinha aquela voz.

– Palhaça, vem aqui.

Era uma voz de criança. Ela deu alguns passos de volta à porta do quarto que havia acabado de passar em frente e um sorriso enorme a esperava.

– Ei palhaça, vem aqui. – Era um menino pequeno que estava sentado na maca, balançando as pernas para trás e para frente, encarando ela com os olhos arregalados e os dentes à mostra. Nina entrou na sala, havia duas outras crianças, mas elas estavam mais quietas.

– Você está aqui nesse hotel a quanto tempo? – Não demorou pra palhaça entrar na brincadeira e as duas outras já a acompanhavam.

– Não é hotel, não, respondeu o menino. O nome dele era Ailton Miguel, com cinco anos ele parecia entender muito bem que estava em um hospital e, talvez por isso, sempre procurava algo que pudesse o fazer rir. Já fazia oito dias que ele estava hospitalizado devido a uma inflamação no quadril e foi obrigado a passar por uma cirurgia que exigia uma recuperação supervisionada pelos médicos. Sem previsão de alta. Nos outros dias da semana, Ailton ia para a brinquedoteca que na verdade é uma sala de brinquedos dentro do hospital, onde ele e outras crianças gastavam parte do seu dia. Entretanto, a recuperação o limitava, a necessidade de cicatrização do corte cirúrgico, que não podia levar pontos, não permitia excesso de movimentação e exigia muito repouso. Por isso, a diversão dele dependia muito da observação do ambiente, na busca de algo que pudesse o fazer rir.

O olhar de uma criança é único e um dia fica pra trás. A procura por elementos fantasiosos para compor as histórias criativas desenvolvidas pela visão de mundo delas é constante e um dia é substituída por outras preocupações. Segundo a mãe do menino, ele está sempre ativo e às vezes ela tinha até que chamar atenção dele, devido a recuperação. “Ele passa o dia na escolinha”, conta ela, “As vezes tenho que buscá-lo para trazer de volta ao quarto, se não é o dia todo, por isso no final da semana é mais difícil”. No final da semana os dias são mais longos, porque a escola não abre e as crianças são obrigadas a passar o dia no quarto. Dessa forma, nota-se a necessidade da atuação voluntária, era uma sexta-feira tediosa pro Ailton, até que ele encontrou um palhaço.

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